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Estudo na Amazônia aponta que proteger floresta existente pode ser mais vantajoso do que restaurar áreas degradadas

Pesquisa liderada pela Universidade de Lancaster e pela Embrapa analisou mais de 3 milhões de hectares no Pará – Santarém e Paragominas – e avaliou os efeitos do desmatamento, das queimadas, do corte seletivo e da restauração entre 2010 e 2020

Proteger as florestas amazônicas que ainda estão de pé pode gerar mais benefícios para a biodiversidade e para o armazenamento de carbono, com melhor relação entre custo e resultado, do que concentrar investimentos apenas na restauração de áreas já degradadas. Essa é uma das principais conclusões de um estudo internacional publicado em 17 de setembro de 2026 na revista Science.

A pesquisa foi liderada pela Lancaster University, em parceria com instituições brasileiras e estrangeiras, entre elas a Embrapa. O trabalho analisou mais de 3 milhões de hectares nas regiões de Santarém e Paragominas, no Pará, durante o período de 2010 a 2020.

Os pesquisadores compararam três estratégias: evitar o desmatamento, impedir formas de degradação da floresta, como queimadas e corte seletivo, e restaurar áreas onde a vegetação original já havia sido perdida.

Proteção da floresta aparece como prioridade

De acordo com os resultados, impedir a degradação das florestas remanescentes apresentou os maiores benefícios para a biodiversidade. A medida também teve efeito importante na proteção dos estoques de carbono, em resultado próximo ao obtido com a prevenção do desmatamento.

O estudo chama atenção especialmente para os efeitos das queimadas e do corte seletivo. Mesmo quando uma área não é totalmente derrubada, esses impactos podem alterar a estrutura da floresta e comprometer espécies de plantas e animais.

Para chegar às conclusões, os pesquisadores combinaram imagens de satélite de alta resolução com informações coletadas diretamente em campo. Foram considerados 381 transectos distribuídos por 38 bacias hidrográficas e 499 propriedades rurais. O trabalho também utilizou modelos para avaliar 160 espécies de aves e 426 espécies ou tipos de árvores.

O professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster e autor sênior do estudo, destacou a necessidade de políticas e recursos voltados à prevenção e ao combate aos incêndios que degradam as florestas tropicais. Segundo ele, a preocupação ganha ainda mais relevância diante das condições associadas ao fenômeno El Niño em 2026.

O pesquisador Leonardo Miranda, autor principal, afirmou que os resultados indicam que a proteção precisa ir além do combate ao desmatamento. Na avaliação apresentada no estudo, evitar incêndios florestais e outras formas de degradação deve fazer parte das estratégias de conservação.

Restauração continua sendo necessária

Os pesquisadores não descartam a importância da restauração florestal. Pelo contrário: a recuperação de áreas onde grande parte da vegetação original já desapareceu continua sendo considerada fundamental.

O problema apontado pela pesquisa está na restauração quando ela é utilizada de forma isolada. Segundo os resultados, recuperar áreas agrícolas degradadas foi a estratégia mais cara entre as analisadas e apresentou menor eficiência quando aplicada sozinha.

A pesquisadora sênior da Embrapa Joice Ferreira ressalta que restaurar novas áreas perde efetividade quando, ao mesmo tempo, as florestas que ainda existem continuam sendo degradadas.

Na prática, o estudo aponta para a necessidade de combinar as estratégias. Evitar o desmatamento, impedir a degradação das florestas remanescentes e restaurar áreas já perdidas produziu os maiores ganhos ambientais quando consideradas em conjunto.

Pesquisa envolve áreas de Paragominas

A presença de Paragominas entre as regiões analisadas dá relevância direta ao estudo para o município e para outras áreas da Amazônia Oriental que convivem com atividades agropecuárias, exploração florestal e fragmentação de habitats.

A pesquisa integra trabalhos desenvolvidos pela Rede Amazônia Sustentável, que reúne pesquisadores de diferentes instituições para estudar as relações entre uso da terra, biodiversidade, produção e conservação na Amazônia.

O levantamento também contou com pesquisadores de instituições do Brasil, Reino Unido, Suécia e Austrália. Entre os parceiros estão universidades e centros de pesquisa envolvidos com biodiversidade, clima, agricultura, geotecnologia e conservação.

Cadeias da soja e da carne também entram na discussão

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a responsabilidade das cadeias produtivas ligadas às commodities agropecuárias.

O estudo aponta que empresas e mercados relacionados à produção e comercialização de produtos como soja e carne bovina precisam considerar não apenas o desmatamento, mas também a degradação das florestas que permanecem em pé.

Essa abordagem amplia a discussão sobre sustentabilidade na produção rural. O desafio passa a ser não somente evitar a derrubada completa da floresta, mas também reduzir impactos provocados por incêndios, exploração seletiva e outras formas de degradação.

O que o estudo mostra

Os resultados não apontam uma solução única para a conservação da Amazônia. A principal conclusão é que diferentes estratégias têm funções distintas e devem ser aplicadas de acordo com a situação de cada área.

Nas florestas que ainda existem, evitar a degradação pode oferecer grande retorno ambiental. Nas áreas onde a vegetação foi perdida, a restauração continua necessária. E o maior benefício, segundo a pesquisa, ocorre quando proteção, prevenção da degradação e restauração são realizadas de forma integrada.

Para uma região como o Pará, onde produção agropecuária e conservação florestal convivem no mesmo território, os resultados colocam uma questão prática para políticas públicas, produtores e empresas: além de recuperar o que foi perdido, como evitar que as florestas que ainda existem continuem sendo degradadas?

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